domingo, 6 de novembro de 2016

Redação ENEM 2016

Sabe a menina negra vestida de branco e de turbante que foi ao supermercado e a operadora de caixa disse que a menina precisava se converter e aceitar Jesus na vida dela pq essa coisa de macumba era coisa do diabo?!
Sabe o deputado que disse que adorar Maria era heresia e que os santos eram falsos deuses e que era melhor os católicos aceitarem Jesus e se converterem porque se não estariam condenados?!
Sabe aquele político que se elegeu prefeito que disse que os africanos estavam perdidos e que precisava levar a sua igreja até eles para que encontrassem o verdadeiro deus da salvação?!
Sabe aquele colega agnóstico, ateu ou satanista que é vilipendiado pelos cristãos dizendo que ele é louco ou que vai pro inferno por não ter fé em Deus?!
Sabe o budista, o panteísta, o taoísta, que não precisam acreditar em um Deus personificado e sempre são julgados como ignorantes ou que precisam conhecer deus ou entender "seu toque" na sua vida, ou ler a Bíblia?!
Sabe aquelas leis que não passam nas câmaras porque a defesa é que Deus (o cristão) não aprova?!
Pois é, e ainda falam que não há intolerância religiosa no Brasil.
Somos todos intolerantes.
A sociedade 90% cristã é a que tem mais atitudes anticristãs já vistas. Esse é o Brasil!
E ao toque de Locke: o Estado deve assegurar o direito do indivíduo de professar sua fé, em seu íntimo, em sua casa e em seu templo, ou mesmo não professar fé nenhuma. O que o Estado não pode é legislar sobre ou baseado na fé de alguém ou de alguma religião específica. Afinal, qual seria o verdadeiro caminho que levaria ao céu? Qual seria a verdadeira religião?

Enem 2016


ENEM denso, conteudista, rebuscado.
A grande maioria dos alunos do ensino público do Estado do Ceará não tem a cultura do estudo, da pesquisa, da leitura, nao tem o capital pra isso.
A grande maioria dos nossos alunos não estudam muito, não lêem muito, não pesquisam muito, coisas essenciais e necessárias para o ENEM como ele tem sido nos últimos anos. Denso, complexo, conteudista, pesado.
Alunos da escola pública quando são obrigados a ter sexto tempo, não ficam, fogem, eles não querem ter mais aula.
Quando são obrigados a assistir aula aos sábados, eles não querem, não vão.
Quando a escola faz simulado e pede para se inscreverem, eles não se inscrevem pq não pensam em fazer Enem.
A universidade pública vira o local de estudo de quem tem possibilidade de pagar uma particular, o aluno classe média alta, o que vem dos grandes sistemas de ensino.
As cotas das escolas públicas procura equalizar isso, e ainda assim, o aluno da escola pública não fica na universidade se passa.
Eu vejo todos os dias o esforço dos professores da escola pública para esses alunos mudarem suas posturas, sua mentalidade imediatista, sua falta de fé no futuro profissional e acadêmico. Eles não perspectivam isso.
Querem dançar reggae, ser dj, trabalhar de auxiliar de alguma coisa e fazer família. É ruim? Lógico que não. Mas a velha diferença entre quem pensa o mundo e faz as escolhas sociais para aqueles que apenas recebem e vivenciam continuará por bastante tempo.
Imaginem agora com um ensino mutilado com a MP 746 e com menos investimento para a educação, com a PEC 241 (55).
O ensino público é sim um grande faz de conta e aqueles que se sobressaem é pq se esforçam muito, e quando digo muito é muito mesmo, não é nem metade do esforço de um aluno de pai e mãe que tem condições de pagar uma mensalidade de 1.000 numa escola particular.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A Identidade de Gênero

Uma das proibições impostas pelos atuais deputados é a de abordar o assunto da identidade de gênero em sala de aula.

Imagina uma aula de Sociologia ou Filosofia, quizá Biologia, sem abordar no mínimo o exposto abaixo:

A pós-modernidade consolidou a possibilidade, inclusive teórica, do indivíduo da espécie humana não se engendrar e se constituir em hábito, pensamento e prática, apenas em concordância à tradicional normatividade que engessa o órgão sexual à prática sexual, ao desejo e às preferências que consequenciam escolhas, hábitos, comportamentos e pensamentos.

Em resumo: 
Por exemplo, um indivíduo da espécie humana determinado geneticamente com pênis, saco escrotal e demais peculiaridades que tradicionalmente se determinaram como significantes do macho da espécie, não tem de necessariamente se adequar aos padrões construídos e sustentados da chamada masculinidade que implica comportamentos, práticas e pensamentos específicos para tal que se formaram antes mesmo de seu nascimento, assim também como não tem a necessidade de desejar ou se relacionar exclusivamente com o indivíduo da espécie marcado geneticamente pelos órgãos de reprodução opostos.

Para finalizar:
Para além de ser tema de Direitos Humanos, é abordagem teórica e dá ótimos debates em sala de aula, e debate é como se forma conhecimento; não doutrinação.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

John Locke



John Locke, inglês, nascido em 29 de agosto de 1632 e falecido em 28 de outubro de 1704, escreveu obras importantes para o pensamento ocidental, tais como:
   A Letter Concerning Toleration (Carta sobre a Tolerância) de 1689;
   Two Treatises of Government (Dois Tratados sobre o Governo) de 1689;
   An Essay Concerning Human Understanding (Ensaio sobre o Entendimento Humano) de 1690;
   Some Thoughts Concerning Education (Alguns pensamentos sobre a Educação) de 1693;

Cada uma destas obras tem uma grande influência em diversos pensadores não só do século das luzes na Europa, mas também dos séculos posteriores no restante do mundo. Por exemplo, a Carta sobre a Tolerância, escrita anonimamente em seu período de exílio nos Países Baixos, serve até hoje para fundamentar o pensamento religioso para além das religiões específicas, ensinando que a Tolerância, a Piedade e o Respeito fazem mais parte da verdadeira religião do que certos ritos e preconceitos.
Nos Dois Tratados sobre o Governo, Locke vai defender suas ideias liberais políticas e econômicas, defender a ideia jusnaturalista de direito à vida, à liberdade e à propriedade, reconhecida por ele como fruto do esforço pessoal que cada um faz livremente em sua vida, e o Estado como uma criação humana para mediar conflitos através do governo de homens, indivíduos que seriam responsáveis por gerenciar a coisa pública de forma horizontalizada, propondo também uma divisão do poder, em três, a saber, o Federativo, o Judiciário e o Legislativo, onde este seria dos três o mais importante, fundamentando assim, inclusive, o modelo sustentado no Reino Unido até hoje, da Monarquia Parlamentarista.
No Ensaio sobre o Entendimento Humano, o autor se inspira em outros filósofos, como o também inglês Thomas Hobbes e o estagirita Aristóteles para discutir diversos temas referentes ao que é ser humano, diante de questões sobre a Linguagem, o Conhecimento e a Metafísica, desenvolve um dos seus pensamentos mais difundidos acerca de como os seres humanos compreendem o mundo, deixando-nos afirmar que nascemos como uma Tábula Rasa, uma folha em branco, que diante do mundo em que vivemos e experienciamos, através de nossas sensações e percepções sensitivas nos moldamos e criamos nossos conhecimentos, não havendo nada antes disso, contrapondo a tese cartesiana de conhecimentos adquiridos antes da experiência vivida, ou seja, inatos.
Nos seus Pensamentos sobre a Educação, já escritos no final do século XVII, em uma Inglaterra consolidada como Estado Liberal, após todas as revoltas ainda contestantes do novo regime político, vemos um Locke bem preocupado e atento às questões da educação das crianças, anterior ao suíço Jean-Jacques Rousseau, já anunciava que às crianças era necessário um olhar diferenciado, pois é nesta fase que costumam ser impressionadas e formadas suas condutas através dos hábitos, para o bem ou para o mal.
Locke acredita fortemente no poder do hábito para formar bem os cidadãos, assim como Aristóteles na Antiguidade, acreditava também que às crianças deveria-se aplicar uma espécie de “psicologia reversa” para que aprendam a gostar de estudar e também aprendam a se esforçar por suas coisas, não esperando nada cair do céu, coadunando fortemente com seu pensamento liberal, podemos ver essa e outras ideias no parágrafo exposto abaixo:

Se cruzam os braços, esperando que tais coisas lhes caiam do céu, devem ficar sem elas. Isso as acostumará a buscar, por si próprias e através do próprio esforço, aquilo que querem. Assim, ser-lhes-ão ensinadas a moderação nos desejos, a aplicação, a industriosidade, a inventividade, o planejamento e a economia, qualidades que lhes serão úteis quando forem homens feitos e que, portanto, jamais se poderá alegar que seja cedo demais para as aprenderem ou que estejam sendo inculcadas demasiadamente fundo. Todos os brinquedos e diversões das crianças devem ser direcionados à formação de hábitos bons e úteis; caso contrário, estabelecerão hábitos molestos. Qualquer coisa que façam deixa marcas sobre esta idade impressionável; a partir de então, recebem a tendência para o bem ou para o mal. E nada que tenha tal influência pode ser negligenciado. (John Locke. Alguns pensamentos sobre a Educação, §. 130)

Podemos concluir que John Locke contribuiu bastante para o pensamento da educação, não só no seu Ensaio sobre o Entendimento Humano, que nos faz perceber a força da empiria, das sensações, da experiência vivida para a formação dos indivíduos e do conhecimento, mas também em seu Pensamentos sobre a Educação, que nos faz ver mais as partes práticas em forma de dicas de como se tratar as crianças e os jovens para que se formem bons cidadãos.

O Nascimento da cidade de Juazeiro do Norte e a sua religiosidade



 Fernando Duarte
            Para falar do nascimento da cidade de Juazeiro do Norte, inicialmente uma pequena vila do Crato, por volta da segunda metade do século XIX contando com três dezenas de casas ao redor de juazeiros (a árvore), precisamos falar do padre que através de sua ação pastoral iniciada na localidade em 1872 conseguiu transformar a região, no século XX, em um polo econômico, industrial e religioso.
            Padre Cícero Romão Batista, conhecido popularmente como “Padim Ciço”, nasceu no Crato em 24 de março de 1844, mesmo ano do “Grande Desapontamento”¹, e morreu em 1934, aos 90 anos de idade.
            Padre Cícero está diretamente ligado com o nascimento da cidade de Juazeiro do Norte, que se tornou município, independente do Crato, em 1909, levando a alcunha de “do Norte” para se diferenciar da cidade baiana, fundada em 1833 em homenagem ao nome da mesma árvore da região, o juazeiro, conhecido também como juá.
            A ação pastoral do padre iniciou-se na vila em 1872 e desde então começaram a surgir pessoas de todo o Nordeste, em romarias sazonais, mas também em migrações que tinham a localidade como destino final, eis que as práticas e pensamentos do Padre tinham um grande poder de mover as pessoas, não só pela fé, mas também pela ideologia de emancipação e dignidade através do trabalho.
            É certo que histórias como “O Milagre de Juazeiro”, em 1889, que iam passando via oral, mas também por escrita, principalmente os cordéis, ajudavam no imaginário popular que ali se tinha um santo na Terra, mais próximo das ideias de um Cristo verdadeiro que da religião católica em si, portanto, movendo pessoas através de suas palavras e pensamentos de certa forma “revolucionários”, fazendo com que as romarias, as viagens movidas pela fé e a esperança de que o padre mudaria vidas, foram dando à Juazeiro do Norte o contingente populacional que fizeram da cidade o que ela é hoje.
            Um dos motes do Padre era fazer de cada casa uma oficina, dando trabalho e independência ao povo que o procurava, cedendo terras para se instalarem, tornando o lugar refúgio para onde convergiam “os desamparados”, mas também era fazer de cada casa um lugar de oração, unindo a religião ao trabalho. O Padre soube utilizar muito bem a estratégia de mercado para seus fiéis de Juazeiro, incentivando a produção familiar, mas também o consumo, principalmente religioso dos itens produzidos, como por exemplo, fogos, rosários, santos e candelabros, usados em casa, nas procissões e nas festas religiosas.
            Della-Cava (apud Holanda, 2008) relata que em 1909, o ano da emancipação de Juazeiro do Norte, a cidade contava com 40 mestres de obras, 8 ferrarias, 7 oficinas de latoeiro, 15 fogueteiros, 20 oficinas de sapateiros, marcenarias, 2 ourivesarias, 35 carpintarias e uma fundição que produzia sinos, relógios de parede e de torres que para além da economia de subsistência eram exportados pelo Nordeste.
            O Nordeste é quase que em totalidade um Semiárido, embora com pontos de transição, ou com reservas florestais, como a do Araripe, faz com que seu povo esteja sempre na esperança de chuva, ou melhores tempos, lugar de disputas políticas familiares e matanças, lugar da adversidade natural e política, faz também com que surja um povo batalhador, esperançoso, que luta como pode e inventa novas maneiras de se viver onde a grande maioria dos que vivem em lugares mais propícios inclusive para a agricultura estranhem.
            Esse povo encontrou não só em Padre Cícero mas no “arquétipo do profeta e provedor” o alimento para seu imaginário coletivo, dando-lhes peculiaridades capazes de os distinguir entre outros religiosos de outras localidades, recriando um “Cristianismo Primitivo” nas palavras de Holanda (2008), transmitindo oralmente ou em versos como o cordel as inúmeras histórias de milagres, curas e profecias que ligavam à região à uma espécie de sacralismo, fortalecendo o universo místico e mágico da fé e da religiosidade que foi a base da construção da cidade.


1. O Grande Desapontamento é um evento referente à uma crença, principalmente estadunidense em que alguns religiosos esperavam que no dia 22 de outubro de 1844 Jesus Cristo voltasse a Terra, quando passou o dia e ele não voltou, deu-se “O Grande Desapontamento”, visto também como “O dia do grande desapontamento”, sendo alguns dos religiosos dessa crença os futuros fundadores da Igreja Adventista do Sétimo Dia, fundada alguns anos depois nos Estados Unidos da América.

domingo, 17 de janeiro de 2016

O Problema da Crimeia e a realidade russa

Fernando Duarte


            A Crimeia é uma península situada na margem norte do Mar Negro, em posição estratégica entre a Rússia e o restante da Europa, à meio caminho do Mar Mediterrâneo. Ela é uma República Autônoma onde predominava uma população tártara específica, mas sempre foi alvo de disputas entre diversos povos, sendo o primeiro exponente dominante os turcos a partir do século XV, e depois os russos, em 1921, com a anexação do território à União Soviética, quando também Joseph Stálin exilou muitos tártaros que eram contra a esta anexação.
            A Crimeia é um ponto de disputa estratégico por sua localidade, mas também por seus portos naturais ao longo da costa. Na Crimeia existe o porto de Sebastopol, onde se localiza a Frota do Mar Negro, de origem russa. De Sebastopol à Istambul são mais ou menos 1000km por mar, enquanto que do porto mais próximo da Rússia à Istambul (em Novorossisk) conta-se pelo menos mais 200 km. Portanto, sendo assim, um local de facilidade para abastecimento e para o gerenciamento do Mar Negro e da segurança da Rússia que a menos de 2 séculos entrou em guerra com o Império Otomano, em confrontos diretos no Mar Negro, onde a Turquia possui, estrategicamente localizado, o porto de Sinop.
            A Rússia há tempos mostra ao mundo que não é apenas um vasto território, mas um Estado muito bem organizado, mesmo com a sua amplitude que abrange Europa e Ásia. Um Estado forte desde os tempos do Império de Pedro I, o Grande, que abriu “as janelas da Rússia para a Europa” ao fundar São Petersburgo, tomado na Guerra contra a Suécia que durou de 1700 a 1721, com o Tratado de Nystad.
            O vasto território russo conseguiu derrotar dois grandes estrategistas, estadistas expansionistas europeus do mundo contemporâneo, a saber, Napoleão Bonaparte no século XIX e Adolf Hitler no século XX. Ambos não foram páreos ao conhecimento dos próprios russos de seu território e de seu clima, fazendo com que aqueles que se aventuram à uma guerra com a Rússia, que se exigem a invasão do território, façam-se sempre com extrema cautela, ou mesmo evitando o conflito direto.
            Toda guerra pode ser vista como resultado natural do desejo humano primordial de preservar a si mesmo, como pensaria o inglês Thomas Hobbes. A harmonia social criada só pode ser sustentada com a força do Soberano, no caso dos Estados, o próprio. Em uma relação entre os Estados, não entre os indivíduos, fica necessário também instituir um limite da ação destes, para que não se destruam e não reflitam um estado natural de guerra de todos contra todos.
            No caso dos Estados, sua soberania é sua força, sua capacidade de autodeterminação e autosegurança diante dos demais. É preciso reconhecer que uma guerra entre Estados soberanos não é a melhor escolha, portanto, a criação de uma harmonia sobre a constante tensão, é necessária, porém complicada, cabendo então a questão: a quem recorrer quando se sentir lesado? Daí a criação de entidades supraestatais e internacionais como a ONU para assegurar uma paz mundial e uma harmonia entre os Estados, não precisando estes recorrer a guerras para resolver seus problemas.
            Quando em 2014 a Crimeia passou novamente a viver uma tensão interna, a maior parte de sua população de origem russa não se identificando com o governo interino ucraniano, com a ajuda da Rússia, contra a própria ONU, resolveu através de um referendo voltar a ser território partícipe da Federação Russa tornou novamente latente o conflito entre Estados, demonstrando a fragilidade da paz criada e a iminência de uma nova guerra não só em território europeu, mas englobando todos os outros continentes, pelas ligações políticas, ideológicas e econômicas existentes.
            O que está em jogo não é mais somente a velha utopia comunista que ameaça o mundo capitalista e liberal, como segundo o historiador Edward H. Carr nos disse, é preciso reconhecer que toda ação política é um misto entre utopia e realidade, e a realidade é bem mais fluida, mesmo que de mais fácil análise por suas regras objetivas, do que a pura e ingênua utopia. O que move as ações dos Estados é o desejo de manter-se, necessitando uma sabedoria política para tal, sendo esta sabedoria um equilíbrio entre a idealização do que se quer e a realização das possibilidades.