terça-feira, 16 de julho de 2013

“ORIGENS DO TOTALITARISMO” DE HANNAH ARENDT.

FERNANDO LUIZ DUARTE JUNIOR

RESENHA DO CAPÍTULO 4 (Ideologia e terror: uma nova forma de governo) DA PARTE III (Totalitarismo) DO LIVRO “ORIGENS DO TOTALITARISMO” DE HANNAH ARENDT.


            Hannah Arendt nasceu em Hannover, Alemanha, em 1906. Estudou nas universidades de Marburg e Freiburg, e obteve seu doutorado em filosofia na universidade de Heidelberg, sob a orientação de Karl Jaspers. Em 1933 fugiu para Paris e em 1941, por decorrência da deflagração da Segunda Guerra Mundial, estabeleceu-se nos Estados Unidos, onde faleceu em dezembro de 1975. Professora visitante em várias universidades, Arendt fez sua carreira acadêmica na New School for Social Research de Nova Iorque. É autora de vários livros, dentre eles: “Origens do Totalirarismo”, “A Condição Humana”, “Entre o Passado e o Futuro”, “Homens em tempos sombrios”, “Eichmann em Jerusalém”, “Responsabilidade e julgamento” e “Sobre a revolução”.
            Nas aulas de Ciência Política III, do semestre 2013.1, ministrada pelo professor Fabio Gentile, no curso de C. Sociais da UFC, lemos o capítulo 4 da terceira parte do livro “Origens do Totalitarismo” da filósofa alemã Hannah Arendt. Neste capítulo, com a ajuda das aulas, vimos que a autora preocupa-se em encontrar uma “essência” para o regime totalitário. Ela questiona se existe uma “natureza”, no sentido de essência, do governo totalitário, analisando para isso o governo nazista, na Alemanha, e o stalinista na União Soviética.
            Podemos encontrar no início do capítulo um esboço de definição para o que seja Totalitarismo, no sentido de: forma de governo que transforma as classes em massa e opera a partir de um sistema unipartidário. Lembrando que a transformação das classes em massa, seria uma tentativa de “organização” do Partido de forma hegemônica e unívoca das nuances de possibilidades de existência, atuação e políticas das pessoas em suas particularidades. A perspectiva é sempre a totalização, a universalização de um sistema de pensamento e organização pautado na lógica do que Arendt chama “Um-Só-Homem” visando a realização da lei da Natureza ou da História.
            Arendt quer nos indicar uma nova perspectiva sobre os governos totalitários, tentando entendê-los, como operam, por que vias, quais seus objetivos e se possuem uma “natureza”. Com isso, ela escreve:

O totalitarismo nos coloca diante de uma espécie totalmente diferente do governo. (...) Mas não opera sem a orientação de uma lei, nem é arbitrário, pois afirma obedecer rigorosa e inequivocamente àquelas leis da Natureza ou da História que sempre acreditamos serem a origem de todas as leis. (ARENDT, 1989, p. 513)

            Arendt quer nos mostrar que o que pensamos do totalitarismo como um governo arbitrário, que impõe força e ilegitimidade, está equivocado. Os regimes totalitários operam por vias legais e pela “vontade” da humanidade no progresso natural ou histórico universal.
            Essa “vontade” da humanidade no progresso natural ou histórico universal, nos diz Arendt que seria, acima das vontades dos homens, o estabelecimento do reino da justiça na terra, algo que está para além das partes, que visa o todo, que visa, não o benefício de um ou de outro, mas o progresso da humanidade, retirando assim toda e qualquer culpabilização das direções do Partido e de seus julgamentos. Neste sentido ela escreve (1989, p. 514-515): “[o totalitarismo] promete libertar o cumprimento da lei de todo ato ou desejo humano; e promete a justiça na terra porque afirma tornar a humanidade a encarnação da lei.”
            Com isso, o emprego do terror, torna-se legítimo para que assim torne-se uma essência dessa forma de governo, que perspectiva uma finalidade grandiosa para além dos próprios homens. Arendt nos diz (1989, p. 517): “[o principal objetivo do terror é] tornar possível à força da natureza ou da história propagar-se livremente por toda a humanidade sem o estorvo de qualquer ação humana espontânea.” Por tanto, as únicas ações desejáveis, recomendáveis e não penalizadas, são aquelas que visam libertar as forças da natureza e da história para que operem livremente, tendo assim, o terror como um meio, e não um fim. No mesmo sentido escreve (1989, p. 517): “O terror é a legalidade quando a lei é a lei do movimento de alguma força sobre-humana, seja a Natureza ou a História”.
            É possível vermos que a falta de liberdade dos homens particulares, cerceados pelo Partido, é uma tentativa de fazer valer a liberdade verdadeira, que é Natural e Histórica, e que com isso, identificando nas teorias de Darwin e do próprio Marx, uma legitimação da exclusão de raças ou classes, tidas como inferiores, como fundamental para a evolução da humanidade de forma universal, histórica e natural.
            A análise de Hannah Arendt nos dá elementos para perceber essa faceta “positiva” das organizações totalitárias. Saindo do lugar comum de opressão, que nos dá características de cerceamento da liberdade individual de forma negativa, donde os opressores são identificados moralmente como maus, desleais, ilegítimos; que não ocorre por exemplo no governo nazista, nem no stalinista, onde foi possível ver o apelo e a força “da massa” para a “empreitada” do Partido na objetivação da lei natural ou histórica.
            Com toda certeza, esse livro de Hannah Arendt é um clássico para se entender o Nazismo, o Fascismo e o Comunismo Soviético, que não deve passar em branco para qualquer graduando de Ciências Sociais que pretenda entender as organizações políticas contemporâneas, fazendo assim, obrigatória a sugestão de leitura completa desse livro.

REFERÊNCIA

ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. Tradução de Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

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