segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

CONSIDERAÇÕES BEAUVOIRIANAS SOBRE O EXISTENCIALISMO

Fernando Luiz Duarte Junior

Resumo:

Em O Existencialismo e a Sabedoria das Nações (uma compilação de artigos de Simone de Beauvoir, datados da década de 1940), Simone de Beauvoir nos apresenta certos pensamentos que podem ser entendidos como a “sabedoria popular” que é preciso pô-los em questão. Pensamentos sobre a moral, a política e em especial, o pensamento que se tem sobre a filosofia existencialista, a qual ela critica afirmando que os que julgam o existencialismo como um “miserabilismo” estão equivocados e não entendem a proposta, são postos em análise à visão da “escrevente” francesa. Podemos perceber após a leitura, uma nova defesa da “filosofia da transcendência”, e sem esquecer, sempre arraigado da questão ética existencialista: “querer-se livre é querer os outros livres” (encontrado também em outros escritos da filósofa do mesmo período, como o livro Por uma moral da ambiguidade de 1947). E são estas considerações que apresentaremos neste trabalho: Uma crítica beauvoiriana da visão popular sobre a moral, política e a própria filosofia existencialista, fundamentado na proposta ética existencialista.

Palavras Chaves: Existencialismo. Sabedoria Popular. Simone de Beauvoir.

A JUSTIFICATIVA DO PODER ABSOLUTO EM THOMAS HOBBES

MARCOS VINICIUS BARROSO RODRIGUES

Resumo:

A seguinte comunicação tem como objetivo expor os argumentos de Thomas Hobbes (1588-1679) no que concerne a justificação da existência do poder absolutista, com base nas obras Do cidadão (1649) e o Leviatã (1651). Esse pensador justificará o poder do soberano com argumentos de caráter racional, diferentemente de outras justificativas, cujo caráter é apenas teológico. Para Hobbes, será através do estado natural do homem que o poder do soberano terá sua existência explicada, pois, por viverem em um incessante estado de guerra os homens estabelecem um pacto objetivando sua preservação. Dessa maneira abdicam de seus direitos delegando-os a um soberano, desse modo, torna-se então possível o surgimento do estado civil fundamentado no absolutismo. Far-se-á, portanto, uma análise sobre o argumento de Thomas Hobbes, estabelecendo, assim, um paralelo com outras justificativas sobre o poder do soberano, dessa maneira, encontrar-se-á o ponto que diferencia este pensador dos demais teóricos do sistema absolutista, além de evidenciar sua crítica em relação ao governo democrático. Conclui-se que o absolutismo será a forma de governo mais adequada para manter o pacto estabelecido pelos homens, do qual originou a sociedade civil, pois, neste sistema, o soberano irá evitar o retorno dos homens ao seu estado natural, ou seja, de guerra. Com efeito, sob as ordens de um sistema de governo, será possível a preservação da espécie humana.

Palavras Chaves: Poder. Soberano. Pacto.

A ESTIMA EM SI, A SOLICITUDE E O SENTIDO DE JUSTIÇA, COMO FUNDAMENTOS DA ÉTICA EM PAUL RICOEUR


ELVIRA ROSA GUIMARAES PALMERIO

Resumo:

O filósofo francês Paul Ricoeur buscou superar a oposição entre ética e moral, construindo um conceito de sabedoria prática, tomando por fundamento as premissas anteriormente elaboradas por Aristóteles e Kant. Para tal, tenta articular a estima em si, a solicitude e o sentido de justiça, como pressupostos da ética fundamental para a existência de instituições justas. Ricoeur expôs essa tese, por ele denominada de pequena ética, na obra Soi Même comme un autre, publicando simultaneamente vários artigos esclarecedores desta. Nesse contexto, para o presente estudo utilizou-se do escrito Ética e Moral, publicado originalmente na França, em 1990, o qual integra a coletânea Leituras, volume 1, intitulado Em torno ao político. O teor estudado indica a característica teleológica da ética segundo Aristóteles, bem como a identidade deontológica da moral conforme Kant, ou deseja, é estabelecida a linha que separa os conceitos finalidade e dever. Verifica-se que Ricoeur leciona que a intenção ética compreende necessariamente três pressupostos: intenção de vida boa, com e para os outros, em instituições justas. Já a norma moral é percebida pelo autor como um formalismo necessário à ética, para que não se faça ao outro o que não queres que te façam e, nesse sentido, Ricoeur aduz que a moral travestida de solicitude se justifica como embargo à violência e à ameaça de violência. Assim, por trás do formalismo, o filósofo compreende que a solicitude faz a transição entre a estima em si e o sentido ético de justiça, compondo a ética em si. O autor finaliza seu preceito invocando uma sabedoria prática, vez que essa, segundo ele, permite que haja equidade no sentido de justiça, uma vez que somente por meio dela é possível a concretização real de um processo de distribuição justo e igualitário. Conclui-se que Paul Ricoeur, ao compor a sua tese ética, defende que apenas será possível a real existência de instituições justas, aqui compreendidas como um sistema de partilha, que se refere a direitos e deveres, rendimentos e patrimônios, responsabilidades e encargos, quando a humanidade formalizar a moral considerando-a a partir de uma intenção ética na qual, sobretudo, é preciso ver o outro como a si mesmo.

Palavras Chaves: Ética. Moral. Justiça.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Direito e Liberdade

Rosana Madjarof

Pensar o Direito, é pensar a Liberdade. Fazer agir o Direito, é viver a Liberdade. Intrinsecamente ligados, mister é que se faça valer o direito à liberdade dentro dos parâmetros e paradigmas do Direito, isto é, temos o direito de nascer, crescer, estudar, comer, morar... e morrer. Esses direitos são necessários para se encontrar, de uma forma ou de outra, os caminhos, as metas e os objetivos de cada indivíduo - tanto para o bem, quanto para o mal -, ou seja, a liberdade será determinada pelos seus princípios de "direito": o errar e o acertar.

A liberdade, antes de tudo, deve ser vista com responsabilidade. A responsabilidade de nossos atos é fator sumamente importante para que possamos fazer jus a "essa tal liberdade"...

Nos dias atuais, vemos e ouvimos, a toda hora e em todo lugar, pronunciamentos em prol da liberdade de expressão. O que seria isso? A grande mídia, tanto a falada, a escrita e a televisiva, quer conquistar "essa tal liberdade". Vejamos... Nos anos 60 existia um objetivo comum: a Ditadura Militar. Os jovens pediam o fim da Ditadura, reivindicavam a redemocratização do País, pediam o fim do imperialismo, queriam a liberdade de expressão, a revolução sexual, paz e amor e a defesa do patrimônio nacional. E hoje? Qual será o ideal de liberdade tão almejado por todos? Podemos dizer que hoje, as demandas e as necessidades são outras. Hoje, há outros grupos organizados que saem às ruas para lutar por direitos, como os homossexuais, os negros, as mulheres etc.

Se fizermos uma viagem através do túnel do tempo, até as décadas de 60-70, veremos que o simples fato de se pensar na palavra "liberdade", já era sinal de alerta para os "Donos do Poder". As pessoas tentavam, através de suas canções e poesias, extravasar o seu "subjugado" pensamento. As palavras de protesto sofriam mutações, e chegavam até nós, através de "Bandas" 1 ou "Flores" 2..., já que a ação da censura impedia que a população tivesse conhecimento daquilo que realmente acontecia, passando, sempre, a idéia de uma "paz tranqüila". Hoje, com a advento da globalização, a circulação de notícias imediatas através da Internet e o fim da Ditadura, temos direito a ter direito a "essa tal liberdade".

Mas, mesmo com a liberdade de pensamentos, nem sempre podemos colocar em prática esses pensamentos. Seria um atentado contra as regras do Direito. Podemos até falar, mas, não podemos, nunca, fazer o que falamos. Se assim fosse possível, quantas vezes teriam matado o nosso Ilustríssimo Presidente? Ou quantas bombas teriam jogado no Palácio do Governo? Nesse caso, temos, somente, a liberdade de opinião, mas nunca a liberdade de ação.

Portanto, delicio-me em dizer que: Não regozijo-me em ser uma livre pensadora, pois, acima de tudo, quero ser uma pensadora livre. Quero ser livre, não somente para pensar, mas, sonhar, falar, errar e acertar livremente.

Liberdade, no fundo, é isto: o direito de "errar", acertar e pensar sozinho.

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1 Chico Buarque de Holanda, em 1966, compôs a música intitulada "A Banda". Em plena Ditadura Militar, esta canção chegou até nós como uma forma simples, alegre e descontraída de demonstrar o amor, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda dos sonhos que o desamor puiu e fixou.

2 Geraldo Vandré, advogado, compositor e músico, em 1968, no III FIC, em São Paulo, causou impacto com a apresentação da música "Pra Não Dizer que não Falei das Flores" ou "Caminhando". A música teve grande êxito, tornando-se uma espécie de hino estudantil, mas teve seu curso interrompido pela censura por mais de dez anos.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Educação: da apropriação pelo capital a resistência ao capital


Autor: Ítalo Andrade Lima¹

Orientadora: Cristiane Maria Marinho



RESUMO: O presente artigo pretende refletir sobre a escola tanto como meio de reprodução da concepção ideológica burguesa quanto como forma de transformação social por meio da construção de uma consciência de classe. Pretende-se mostrar que na escola é possível formar outra concepção ideológica, antagônica à vigente, como elemento na construção de uma sociedade alternativa a capitalista. Nesse trabalho a escola será mostrada como meio de “preparar” o individuo para o mercado de trabalho por intermédio de uma grade curricular voltada para a formação de mão-de-obra. A escola serve também como forma massiva de reproduzir a ideologia dominante nos moldes burocráticos empresariais, tendo sido impregnada, através da apropriação feita pelo capital, da idéia de concorrência, rankiamento e outras esquematizações que são natas de uma empresa nos moldes capitalistas. Entendemos que a educação na sua feição capitalista atual não é suficiente para fundamentar a emancipação do homem trabalhador, uma vez que a educação deve servir como um meio de formar um individuo crítico, não só dentro do espaço da escola mas também no trabalho que este irá exercer. A educação deve servir para que o trabalhador se questione sobre a forma alienante do trabalho hoje instaurado e não para adaptá-lo ao sistema.


Palavras-chave: educação, capitalismo, emancipação.


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1. Graduando em Filosofia - Universidade Estadual do Ceará.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Gianni Vattimo

João Paulo de Oliveira

Uma das orientações filosóficas mais expressivas que se destaca na sociedade contemporânea é a hermenêutica, compreendida em linhas gerais como teoria da interpretação, que propõe uma compreensão global e crítica da sociedade, da cultura e dos fenômenos sobrejacentes à experiência humana. Entre os autores mais significativos dessa leitura está Gianni Vattimo que pensa a atualidade estética em contraposição ao estatuto estético clássico difundido na modernidade. Sua preocupação é com a compreensão das novas condições de existência no mundo industrial tardio. Para tanto, estabelece um diálogo com várias correntes filosóficas defendendo ter o contexto cultural contemporâneo uma chance para uma nova interpretação da sociedade em que o ser humano possa ter uma experiência diferente da existência. Esta nova possibilidade surge com o título de pós-modernidade.

A proposta de Vattimo apresenta-nos importantes elementos para se compreender a situação da sociedade atual. Para Vattimo é preciso lidar com os acontecimentos nos seus mais variados aspectos: cultural, religioso, social, político, artístico, ético etc. Ele afirma o fim da modernidade e o início de um outro tempo caracterizado fundamentalmente pelo fim da metafísica. Sua proposta busca compreender o que se convencionou chamar cultura pós-moderna e suas implicações na experiência humana, retomando abordagens de Friedrich Nietzsche (Röcken, 15 de Outubro de 1844 — Weimar, 25 de Agosto de 1900) e Martin Heidegger (Meßkirch, 26 de Setembro de 1889 — Friburgo, 26 de Maio de 1976), apresentando entre outros temas, uma reflexão sobre o nihilismo e a crise da metafísica tradicional, “Trata-se, antes de mais nada (...) de se abrir para uma concepção não-metafísica da verdade, (...)”. ¹

O ponto de partida para a reflexão estética vattiminiana é a crítica de Heidegger à Estética, a crítica ao subjetivismo moderno. De que modo a estética moderna não diz nada sobre a “verdade da arte” e sua “essência”. A Estética não vem considerada mais como um discurso do “belo artístico”, nem como a teoria do conhecimento sensível perfeito, das faculdades pré-reflexivas, mas é uma crítica do que se convencionou chamar filosofia da arte, vista como uma patologia estética. Falar de estética para Vattimo não significa a defesa da estética tradicional: não significa perguntar pelo estatuto da estética como saber particular. É preciso se questionar o modo tradicional como a Estética determinou certas disposições relativas ao sujeito. A arte, que era anteriormente a reflexão central dos estetas tradicionais, passa a ser absorvida pela técnica. Não há mais um lugar específico - no sentido da experiência tradicional -, da arte.
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1- VATTIMO, Gianni. O fim da modernidade. P. VXIII.

Para Vattimo há fragmentações dos valores estéticos, prelúdio de um mundo não metafísico, sem categorias fixas “facilitadoras” da reflexão sobre a realidade. Portanto, uma vez diminuído o supra-sensível da metafísica (aquilo da ordem fundamental da essência), o que resta senão o sensível da Estética? O primado da estética contemporânea tem sentido frágil justamente por implicar uma idéia frágil de Ser pensado sempre como acontecimento. É impossível pensar essa atualidade sem uma experiência estética. O que se anuncia como “verdade” nessa época é a Estética. O primado frágil da Estética não trata de um discurso de sua justificação da como uma ciência autônoma e particular, pois o que Vattimo propõe é ultrapassar o discurso da Estética como disciplina filosófica. A “estética frágil” identifica-se com certos acontecimentos da experiência histórico-cultural contemporânea.

Pensar o fundamento é ainda uma exigência do saber tradicional que caracterizou o discurso da Estética clássica. O exame das relações sociais constata a precariedade da vida produzida em relação a determinados rumos tomados pela civilização tecnológica ocidental. Hoje esse discurso se configura como um discurso estético, que não é mais apenas um discurso sobre o belo artístico e as belas artes. Não há mais como se falar de uma experiência estética desvinculada das demais experiências, pois é um fenômeno que quebra põe em questão toda a noção de racionalidade. A atenção volta-se as faculdades pré-reflexivas como constituidoras de sentido, afinal, não há como negar que a experiência humana em geral apresenta uma experiência da verdade desvinculada daquela verdade concebida metodologicamente pelo saber científico.

A experiência estética não está mais limitada aos críticos de Arte nem aos problemas da Arte, mas está se posicionando como algo que se reporta às influências da indústria cultural. Ela se põe como possibilidade crítica dos objetos, ou da cultura produzida pela tecnologia da indústria cultural. A nova experiência estética proporcionada pela tecnologia e a difusão acelerada dos meios de comunicação em massa busca se introduzir em um universo que seria inacessível a uma reflexão racional moderna que poderia não identificar aquilo que se esconde no tecido social, na vida cotidiana dos indivíduos e que se perderia de vista em razão de uma dada concepção de racionalidade.

Vattimo em obras como O fim da modernidade: Niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna e A sociedade transparente mostra-nos que a Estética tradicional é incapaz de compreender a experiência estética nos rumos tomados nos séculos XX e XXI. Não existe mais esse lugar específico da Arte reconhecido antes pela experiência estética tradicional.